Tratamento com injetáveis exige apoio à saúde mental
As medicações injetáveis para o tratamento da obesidade ganharam espaço nos consultórios e nas redes sociais, mas um aspecto ainda é pouco debatido: os impactos emocionais vivenciados pelos pacientes durante o tratamento. Embora muito se fale sobre perda de peso e efeitos colaterais físicos, especialistas alertam que a saúde mental também precisa fazer parte dessa conversa.
Segundo a psicóloga Andrea Levy, cofundadora da ONG Obesidade Brasil, é comum que alguns pacientes sintam indisposição, redução da energia ou mal-estar nas primeiras semanas de uso da medicação, principalmente devido aos efeitos gastrointestinais e à adaptação do organismo.
“Nem todo desânimo significa depressão. Os efeitos colaterais iniciais podem causar desconforto e impactar o humor temporariamente, mas isso não quer dizer que o paciente tenha desenvolvido um transtorno mental. É importante que a avaliação seja individualizada para diferenciar uma situação da outra.”
Ao mesmo tempo, a especialista ressalta que sintomas persistentes, como tristeza intensa, isolamento, perda de interesse pelas atividades e sofrimento emocional, devem ser investigados por profissionais de saúde.
Andrea Levy também destaca que muitos pacientes depositam expectativas muito altas nas medicações. “O emagrecimento pode melhorar diversos aspectos da qualidade de vida, mas não resolve automaticamente questões como ansiedade, autoestima ou compulsão alimentar. O cuidado psicológico continua sendo fundamental.”
Para a médica nutróloga Dra. Andrea Pereira, presidente da ONG Obesidade Brasil, é importante compreender que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, cujo tratamento vai muito além da medicação.
“As medicações representam um grande avanço, mas fazem parte de um cuidado mais amplo, que inclui mudanças de hábitos e acompanhamento multiprofissional. Em muitos casos, o uso poderá ser prolongado, assim como acontece no tratamento de outras doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Isso não significa dependência, mas controle adequado da doença.”
Já o cirurgião bariátrico Dr. Carlos Schiavon, também cofundador da ONG, chama atenção para o impacto do preconceito na saúde emocional dos pacientes. “Ainda existe muito julgamento em relação ao uso dessas medicações, como se fossem um atalho para emagrecer. Esse estigma gera culpa, vergonha e pode até comprometer a adesão ao tratamento. A obesidade é uma doença e deve ser tratada com base em evidências científicas, sem estigmas.”
Os especialistas reforçam que o sucesso do tratamento depende de uma abordagem integrada. “Não basta olhar apenas para a balança. É preciso cuidar também das expectativas, da autoestima, da relação com a alimentação e da saúde mental para que os resultados sejam sustentáveis e tragam qualidade de vida”, conclui Andrea Levy.

