Brasil é terceiro do mundo no ramo de animais silvestres e exóticos
Há 12 anos, o cirurgião-dentista Tiago Barros divide a vida com Kirk Douglas, seu fiel animal de estimação. Não estamos falando de um cachorro nem de um gato, mas de uma jiboia. O profissional da saúde comentou que, desde criança, teve interesse em animais “diferentes” e, com o tempo, o fascínio se tornou uma verdadeira paixão.
“Sempre gostei de lagartos, escorpiões, aranhas. Esses tipos de animais. Sempre tive vontade de ter uma cobra, via muito nos filmes e aquilo me despertava o desejo de ter, um dia”, comentou.
No começo, foi difícil para a família de Tiago aceitar o Kirk Douglas. Tinham receio, medo; mas, atualmente, todo mundo se acostumou com o animal e se apegou. O cirurgião-dentista explica que isso acontece porque o bicho é dócil e cria laços de amizade. Tiago pensa em ter mais cobras no futuro.
“A minha serpente, o Kirk Douglas, demonstra carinho. Se boto no chão, vem rastejando até meus pés, conhece meu cheiro. Trato como se fosse um filho, um membro da casa”, disse.
Terceiro no ranking mundial
Muita gente pode torcer o nariz e estranhar ter um animal não tão convencional como pet, mas o Brasil é o terceiro no ranking mundial de países com mais animais de estimação, e 39% dos 146,6 milhões de bichos são da fauna silvestre ou exótica. Os dados são do censo do Instituto Pet Brasil e da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação.
Para responder o que são, de fato, esses grupos de seres vivos, A CRÍTICA conversou com a mestre em biologia Ana Lobo. Ela explicou que, de forma geral, o animal silvestre é proveniente da nossa fauna brasileira, enquanto o exótico é “importado” de outras regiões do mundo. Ambos se diferem dos domésticos, aqueles que, ao longo de gerações, passaram por um processo de adaptação genética, biológica e comportamental para viver sob a responsabilidade e o cuidado direto dos seres humanos (como cães e gatos).
Nem todo animal silvestre ou exótico pode ser domesticado como um pet. Primeiro de tudo, é preciso saber que existe uma lista limitada de espécies. Alguns exemplos por grupo são: aves, como papagaios, araras e calopsitas; répteis, como jiboias e iguanas; e mamíferos, como saguis, furões e chinchilas. Todos precisam, por lei, vir de criadouros reconhecidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Nada de pegar os bichos da natureza.
“Se você remove um animal da natureza para criar em casa, você está cometendo um crime ambiental. Mesmo que a sua intenção seja a melhor possível em relação ao bicho”, alertou Ana Lobo.
Da adoção aos cuidados com o animal silvestre ou exótico
Uma vez adquirido, o novo pet vai gerar uma nota fiscal emitida pelo criador comercial ou loja autorizada. O estabelecimento também precisa entregar o certificado de origem, um documento que comprova que o animal nasceu em cativeiro. Por fim, ele será marcado com um microchip ou anilha de identificação individual. A partir daí, os cuidados em casa começam.
Ana Lobo lembra que ter um pet silvestre ou exótico em casa é completamente diferente da rotina exigida por um gato ou cão, por exemplo. A gente começa esse contraste com a alimentação. Vamos imaginar que você ganhe uma serpente como a jiboia-arco-íris (Epicrates spp.) de presente de aniversário. Quem te presenteou pode ter desembolsado cerca de R$ 5 mil na compra dela. O que você vai dar para ela comer? Já adianto que não é ração comprada em qualquer supermercado.
“Répteis, na sua maioria, vão se alimentar de presas vivas ou abatidas no momento da alimentação. São animais carnívoros, com hábitos predatórios. Serpentes se alimentam de ratos quando estão pequenos”, disse.
Outra questão é o local onde o animal vai ficar. Sua serpente, que aqui vamos chamar de Cassiopeia, não pode sair rastejando livremente pela sua casa sem rumo. Isso pode gerar danos à saúde dela: fica sujeita a ser esmagada por portas, pisada por pessoas desatentas, sofrer queimaduras em eletrodomésticos ou ser atacada por outros animais, caso os tenha.
A bióloga reforça que o bem-estar do pet é prioridade. Cobras precisam ter seu próprio lar: os terrários. São ambientes que simulam um habitat natural e possuem fonte de calor. Ana lembra que as serpentes são ectotérmicas, o que significa dizer que precisam de uma fonte externa de calor para manter atividades vitais. E o local precisa ser amplo e aconchegante para que a sua Cassiopeia se sinta bem; o estresse pode causar até a morte dela.
“O estresse em cativeiro pode levar o animal ao óbito. Para reduzir isso, preciso oferecer um espaço que simbolize o mais próximo da natureza, com enriquecimento ambiental que vai suprir as necessidades que o animal teria em ambiente natural”, disse.
Conscientização ambiental e responsabilidade
Talvez agora você esteja se questionando se queria mesmo ter ganhado um presente como esse. É um questionamento totalmente válido, já que conhece o peso da responsabilidade de criar um animal silvestre. Mas esse raciocínio precisa ocorrer antes da adoção ou compra. Ana Lobo defende que é o primeiro exercício, antes mesmo de pesquisar onde comprar um pet do gênero.
“A gente tem que estudar muito a fundo sobre o animal, a estrutura e os recursos que se precisam ter. A gente compra a serpente, por exemplo, bem pequenina, mas ela pode chegar até quatro metros. Ela vai ter espaço para viver bem?”, disse Ana Lobo.
O que todos os amantes da natureza, dos animais e do bom senso esperam com esse interesse crescente por pets silvestres ou exóticos é que a população em geral passe a conhecer mais a respeito dessas espécies. Que preconceitos sejam derrubados e, mais do que tudo, que a saúde e o bem-estar deles sejam preservados.
“Olhando para o lugar onde vivemos, a Amazônia, temos a noção de que ela tem a maior biodiversidade da Terra. Manaus tem espaços como o Museu da Amazônia, que explicam como esses animais vivem”, comentou Ana Lobo.
Alerta: Crime ambiental
Pegar um animal silvestre diretamente da natureza é crime ambiental (artigo 29 da Lei nº 9.605/1998). A pena pode chegar a seis meses de detenção e multa, além da apreensão do animal. Mas soltar na natureza o pet que você comprou em cativeiro também não é certo. No caso de animais da nossa fauna, pode ser considerado até crime de maus-tratos (art. 32 da Lei nº 9.605/98).
É que eles podem morrer de fome ou serem predados rapidamente, já que não estão acostumados ao convívio com a vida selvagem. Agora, soltar animais exóticos por conta própria fere as leis de proteção ambiental. Eles competem com espécies nativas, transmitem doenças e desequilibram a fauna local.
Cuidado especializado
E se a Cassiopeia ficar doente? Você não vai poder levá-la até o Hospital Público Veterinário do Amazonas, muito menos até uma clínica convencional. Animais silvestres e exóticos precisam de veterinários especializados nesse tipo de atendimento. Em Manaus, existem unidades de saúde específicas para o grupo de bichos, e as consultas variam entre R$ 80 e R$ 300, mas podem ultrapassar R$ 400 em casos de atendimentos emergenciais.

